“privatização da cultura – a intervenção corporativa nas artes desde os anos 80” (CHIN-TAO WU)

02/12/2011

LEITURA DO LIVRO – “privatização da cultura – a intervenção corporativa nas artes desde os anos 80” (CHIN-TAO WU)
SILVA, Patrícia Mara Rodrigues
patriciamarars@gmail.com
Escola Guignard – UEMG

Publicado no Brasil em Outubro de 2006 pela editora Boitempo em São Paulo, “Privatização da cultura – a intervençao corporativa nas artes desde os anos 80” foi escrito por Chin Tao-Wu, autora especialista em arte e cultura contemporânea, pesquisadora da Academia Sinica, em Taiwan pesquisadora honorária da Universidade College, na Inglaterra.
Este livro fez parte da pesquisa bibliográfica para o meu trabalho: “ÁRVORE DE DINHEIRO” – A PRODUÇÃO ARTÍSTICA ATUAL E SUAS IMPLICAÇÕES NO MERCADO, monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação Lato Sensu Arte e Contemporaneidade – Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG – Escola Guignard, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Artes Plásticas, orientada pelo Professor doutor José Wenceslau Caminha Aguiar Junior. No meu estudo trago à tona questões críticas e sociológicas sobre a produção artística pós-moderna e suas implicações no mercado de arte atual. Ao longo do texto é analisado o sistema “mercado da arte” e seus reflexos sobre a produção artística através de trabalhos e textos de artistas e teóricos, destacando-se o artista Cildo Meireles, incluindo trechos de uma entrevista com o artista realizada no dia 09/04/2010.
Com base em pesquisas sobre coleções corporativas Chin –Tao WU explora a estratégia das corporações para fazer da arte um negocio. O livro é dividido em 9 partes: uma Introdução, sete capítulos e conclusão, que serão descritas a seguir:

  • Introdução

A partir dos anos 1980, uma série de transformações políticas para o sistema de arte foram implementadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Vários tipos de incentivos e isenções tributárias favoreceram a criação de coleções corporativas e a criação de inúmeros museus privados. Para a autora a arte contemporânea
funciona como “moeda de valor simbólico e material” para as corporações e seus altos executivos.

  • Financiamento publico das artes nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha: preliminares

Munidas de apoio público, grandes empresas formaram equipes com seus próprios curadores (muitas vezes empresários) e departamentos artísticos, e criaram seus próprios museus privados à imagem dos museus públicos convencionais. Estas instituições privadas, além de servirem como uma grande estratégia de marketing, se tornaram um ótimo negócio, pois são isentas de vários impostos, inclusive sobre os ingressos, as vendas em restaurantes e lojas de souvenirs dentro do museu.

  • A mudança do papel do governo nas artes:

As agencias publicas de artes, como o Arts Council da Grã-Bretanha (ACGB) e o Fundo Nacional para as artes (NEA) nos Estados Unidos, são os instrumentos de poder do estado sobre a produção artística. Durante os governos Reagan e Thatcher com inicio em 1981 e 1979 respectivamente, foi aplicada a política de redução de gasto publico e expansão do setor privado. Houve um corte orçamentário de 30% sobre o NEA declarando ser o apoio federal para a cultura um “item de baixa prioridade” e uma serie de reformas tributarias foram aplicadas para incentivar doações privadas para as artes. Na Gra-Bretanha o mesmo acontecia, o governo criou folhetos intitulados: The art are your business, que foram distribuídos no comercio e na indústria exaltando os benefícios do patrocínio empresarial.

  • Guardiães da cultura na empresa: curadores de arte.

Neste capitulo a autora analisa como e porque os dirigentes corporativos passarram a ter assento nos conselhos de museus de arte na década de 1980 nos dois países. Dentro das comissões curatoriais, cerca de 1/3 eram executivos de empresas, banqueiros e contadores. Em um caso extraordinário mas não tão diferente dos outros, dentro do Museu de Artes de Cleveland, dez entre dezesseis curadores eram parentes dos fundadores ou de curadores e
benfeitores passados.

  • A absorção da cultura empresarial: instituições artísticas a partir de 1980

Ao patrocinar instituições artísticas, as corporações adquirem uma imagem humanista, revestindo assim, seus interesses particulares com “um verniz moral universal”. Segundo Bourdieu, as elites empresariais transformam capital cultural em capital social que, mais tarde será revertido em capital econômico. Deste modo é criada uma falsa imagem da chamada “filantropia corporativa”. A autora usa o exemplo da Tate Gallery, que é comumente usada como meio de relações publicas dos patrocinadores, pois permite aos sócios pertencerem a um “clube exclusivo”. Além de promover as chamadas exposições blockbuster, com direito a vernissages com convidados impares, servidos de champanhe e canapés.

  • Prêmios corporativos para as artes

Também os prêmios para as artes, são usados pelas corporações como marketing, pois se tornam um veiculo promocional com o qual se pode cruzar fronteiras, seja nacional ou cultural, como por exemplo: Premio Philip Morris para artes no Japão. “Assim, as corporações conseguem se colocar sob as luzes da mídia e simultaneamente no coração do mundo artístico” p.184

  • Vitrines da arte contemporânea nas sedes corporativas

Neste capitulo, a autora mostra diversas formas que as empresas criam espaços para a arte dentro de sua corporação, que além de patrocínio e parcerias com museus, muitas vezes são criadas grandes galerias em suas sedes enquanto outras instalam exposições de arte contemporânea em sua própria área de trabalho. A autora afirma que por mais liberal que a corporação queira se apresentar, exposições que ofendam a empresa que cede o espaço são bloqueadas ou canceladas. Como por exemplo uma exposição do artista Hans Haacke que tratava da especulação e manipulação do mercado imobiliário por grupos imobiliários de Manhattan foi cancelada pelo museu Guggenheim.

  • Coleções corporativas de arte

“Qual a relação entre o negocio da arte contemporânea e o de um escritório de advocacia, e porque um escritório de advogados teria motivação para se lançar na ‘vanguarda do próprio mundo da arte’?” p.241 Os indivíduos, colecionadores, normalmente são conhecidos por terem uma grande paixão pela arte. Mas é muito fácil de perceber que uma coleção corporativa vai muito alem do gosto desejo pessoal do presidente, pois além de uma espécie de investimento, o que se cria é uma declaração social especifica, uma atitude notada pelo publico.

  • Conclusão: Do conservadorismo ao neoconservadorismo

“Uma vez que o vocabulário empresarial e os valores corporativos entram numa instituição de arte, seu teatro de operações também será dominado pelo etos e pelas praticas das multinacionais … Ainda que o financiamento publico das artes tenha suas limitações e fraquezas, ele ao menos é um fórum, e um fórum que esta aberto ao debate e a critica.” A autora demosntra esperança de que a posição privilegiada das corporações no mundo artístico não seja permanente e que países como a França, ainda existe um forte financiamento publico para as artes, que reluta contra a sua privatização.
NOTA PESSOAL:
Existem grandes financiamentos e instituições corporativas interessadas na produção artística atual, por ser o “capital cultural” um dos grandes investimentos da atualidade pela facilidade de manipulação financeira. Considerando-se também o fato de que o “novo mecenato” é também um instrumento de sedução do público, os “mecenas” de hoje operam para se promover junto às suas empresas, usando as mesmas técnicas utilizadas para promover seus produtos. São entidades preocupadas com a sua imagem e com a aprovação por parte de seus clientes e do público em geral: a escolha do artista que ira representar a empresa não é muito diferente daquela do garoto propaganda da sua marca. Deste modo, muitas vezes a liberdade de criação artística fica comprometida, pois o artista se submete à vontade das empresas que o financiam.
REFERENCIA BIBLIOGRAFICA:
WU, Chin-tao. Privatização da cultura: a intervenção corporativa na arte desde os anos 1980.São Paulo, Boitempo editorial, 2006.

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