“Inserções em circuitos ideológicos” e suas implicações no contexto social atual

31/08/2010

SILVA, Patrícia Mara Rodrigues

patriciamarars@gmail.com

Escola Guignard – UEMG

Em 1960, começa no Brasil o movimento artístico chamado ”neoconcretismo”, movimento artístico que apresenta uma abordagem multissensorial, colocando o corpo e o publico como objetos centrais da obra de arte: o artista carioca Cildo Meireles se identificou com este movimento. Entretanto, sua obra sempre apresentou um caráter múltiplo. Variava entre trabalhos que lidavam com a política, a percepção sensorial e os conceitos da ciência, principalmente os da física. Em uma entrevista, Cildo explicita sua simpatia pelo neoconcretismo ao dizer: Sempre que tentamos definir arte, confrontamos as divisões entre o que é e o que não é considerado objeto de arte. O que me atraiu no neoconcretismo foi a possibilidade de pensar sobre arte em termos que não se limitasse ao visual (MEIRELES – 1993, p.13)

Em 1970, o artista realizou um de seus trabalhos mais importantes, o projeto Inserções em circuitos ideológicos. Neste trabalho, encontram-se duas abordagens, uma com interferências em garrafas retornáveis de Coca-Cola, e outra em cédulas (cruzeiros e dólares). O artista transferia para esses objetos frases de caráter político que eram normalmente censuradas na mídia, como a pergunta, “Quem matou Herzog?”[1] ou frases como Yankees Go Home!. Cildo Meireles se refere a este trabalho como um Grafitti que se movimenta, as cédulas são veiculo de uma ação tática clandestina, uma pratica eminentemente social e perceptível como artística” (MEIRELES,1995, p.109)

Neste projeto, esses objetos permaneceram no circuito social, diferente de outros trabalhos do artista, pois as cédulas não foram levadas ao circuito das artes como, por exemplo, em “zero dólar[2]. Pode-se dizer que foi uma idéia antagônica aos “ready-mades” de Duchamp, e considerar ser o inverso da operação no qual um objeto do cotidiano é absorvido pela arte. O trabalho de Cildo Meireles é o objeto de arte atuando no cotidiano.

Em Information 1970/89, texto publicado pelo artista em 1995, outros problemas tratados pelo trabalho são colocados em discussão. Problemas que persistem até hoje no cenário das artes, como a não-superação do modelo mercantilista do objeto de arte – Inserções em circuitos ideológicos é justamente a negação disso, pois é um objeto de circulação autônoma, é um objeto não-burguês, como descreve o artista – e a não superação ao modelo sistema de arte, que “continua praticamente inalterado, e funda-se quase que invariavelmente num mercantilismo empobrecedor, fraudulento e decadente”. (MEIRELES, 1995, pg. 109).

Um dos passos que foram tomados, pelo o artista, para a realização do projeto, foi a substituição da noção de mercado pela de público, pois, segundo ele, a preocupação e a necessidade do artista com o mercado é motivo de vários problemas estruturais para a produção artística contemporânea, dentre eles estão: a dependência à um modelo de mercado; a uma discriminação do publico, que acaba se mantendo distante da produção artística atual; a uma preferência pelo “politicamente correto” que leva a um bom-mocismo temático pobre; a uma conivência com o poder constituído; a uma anestesia criativa e auma vergonhosa traição ideológica para com a maioria dos brasileiros”. (MEIRELES, 1975, pg 115).

Em uma entrevista em 2006, sobre o projeto Inserções em Circuitos Ideológicos o artista afirma que:

“Naquele período, jogava-se tudo no trabalho e este visava atingir um número grande e indefinido de pessoas: essa coisa chamada público. Hoje em dia, corre-se inclusive o risco de fazer um trabalho sabendo exatamente quem é que vai se interessar por ele. A noção de público, que é uma noção ampla e generosa, foi substituída (por deformação) pela noção de consumidor, que é aquela pequena fatia de público que teria o poder aquisitivo”. (MEIRELES,2006).

Neste tipo de trabalho, realizado por Cildo Meireles e por vários outros artistas da década de 1960/70, foi retrabalhada a negação da figura genial do artista e da supervalorização do objeto de arte – critica feita por Duchamp várias décadas anteriores. Deste modo, qualquer pessoa poderia realizar o trabalho de forma idêntica ao feito pelo artista, sem ser considerado cópia, pois não há distinção entre o original do artista, e o feito por outra pessoa qualquer, são obras libertas do autor. Cildo Meireles sempre deixou claro que grande parte de suas obras eram feitas para serem reproduzidas por outras pessoas, em especial em Inserções em Circuitos Ideológicos, em que a participação do publico era imprescindível para o sucesso do trabalho, e quanto mais gente participasse e colaborasse com a idéia criando suas próprias frases, melhor.

“No momento em que há distinções nessa ou naquela direção, surge a distinção de quem pode fazer arte e quem não pode fazer. Tal como eu tinha pensado, as Inserções só existiriam na medida em que não fossem mais a obra de uma pessoa. Quer dizer, o trabalho só existe na medida em que outras pessoas o praticam. Uma outra coisa que se coloca, então, é a idéia da necessidade do anonimato. A questão do anonimato envolve por extensão a questão da propriedade. Não se trabalharia mais com o objeto, pois o objeto seria uma prática, uma coisa sobre a qual você não poderia ter nenhum tipo de controle ou propriedade. E tentaria colocar outras coisas: primeiro, atingiria mais gente, na medida em que você não precisaria ir até a informação, pois a informação iria até você; e, em decorrência, haveria condições de “explodir” a noção de espaço sagrado.” (Meireles, 2006).

E é neste ponto que podemos diferenciar a idéia de Cildo Meireles à idéia do ready-made de Duchamp. Neste trabalho, a obra não é a cédula, e sim o processo de circulação pelo qual essas cédulas vão passar. Elas são o veiculo da informação. Vale a pena lembrar que, alguns trabalhos da época, não eram sequer  materializados.  Eram apenas sugestões para serem feitas em casa, por qualquer um que assim o desejasse. Tema decorrente em muitos trabalhos desenvolvidos por Lygia Clark e por artistas do movimento Fluxus em meados da década de 1960.

O artista considera que Inserções em circuitos Ideológicos (1970) é um modo de pensar, movimentar e provocar a dormência e a alienação causada pela indústria de massa. Uma forma de intervenção e manejo do convívio em sociedade. “Tal qual existe hoje, a força da indústria se baseia no maior coeficiente possível de alienação. Então as anotações sobre o projeto Inserções em Circuitos Ideológicos opunham justamente a arte à indústria.” (MEIRELES, 2006)

Segundo o artista, as Inserções… surgiram, principalmente, do interesse em criar um sistema de informação que não fosse sujeito a nenhum tipo de controle unilateral.

“Na verdade, as Inserções em Circuitos Ideológicos nasceram da necessidade de se criar um sistema de circulação, de troca de informações, que não dependesse de nenhum tipo de controle centralizado. Uma língua. Um sistema que, na essência, se opusesse ao da imprensa, do rádio, da televisão, exemplos típicos de media que atingem de fato um público imenso, mas em cujo sistema de circulação está sempre presente um determinado controle e um determinado afunilamento da inserção. Quer dizer, neles a “inserção” é exercida por uma elite que tem acesso aos níveis em que o sistema se desenvolve: sofisticação tecnológica envolvendo alta soma de dinheiro e/ou poder.” (MEIRELES,2006).

Um exemplo deste tipo de atividade, esta sendo realizada hoje na internet com o Twitter. Ferramenta criada em 2006 por Jack Dorsey, que consiste em uma rede de contatos e troca de informação instantânea pela internet. Pode-se considerar essa ferramenta um exemplo de uma midiatização descentralizada, em que cada pessoa escolhe o que vai ser passado para frente e acaba sendo decidido pela maioria o que vai estar em evidência. Um exemplo de mídia democrática. Assim como as cédulas de Cildo Meireles: um meio de comunicação livre que, diferente da televisão, do rádio e da imprensa, não depende de uma elite que desenvolve seu poder e a manipula em favor de seus interesses.

Este assunto vem sendo cada vez mais discutido por jornalistas, que vêem na Internet um meio para finalmente obterem uma mídia democrática. Mas Cildo Meireles parece um pouco cético quanto a isso. Quando foi questionado, por Fernando Oliva em 2006 se ele tinha planos de realizar trabalhos na internet, ele respondeu que provavelmente sim, mas achava improvável realizar uma obra como Inserções… pois esta obra necessita justamente de um meio que não tivesse nenhum tipo de controle de informação, e, para ele, a internet não é confiável nesse ponto. (MEIRELES,2006)

No entanto, ocorreu durante um evento mundial – a copa do mundo de 2010 – através da ferramenta Twitter, uma afronta da população ao maior meio de comunicação do Brasil – a Rede Globo de Televisão – em que foi divulgada para o mundo uma opinião publica contrária a divulgada na mídia. Isso se torna possível apenas pela possibilidade trazida pela nova ferramenta, de colocar em evidência, para o mundo um tema qualquer, sendo necessária apenas a aprovação e divulgação do mesmo por um número grande de pessoas. Uma rede de poder com caráter democrático sem controle unilateral (SAMPAIO, 2010). Um programa computacional não é capaz de estabelecer um controle consciente sobre uma informação, é possível criar um controle sintático, mas não semântico. Entretanto, o fato de existir esta possibilidade de controle sintático, torna-se possível criar filtros e, se assim desejado, desenvolver algum tipo de manipulação ou censura. Filtros que já são utilizados pelo Google[3], por exemplo, de forma que palavras utilizadas nos e-mails que redigimos e recebemos, são reconhecidas e usadas para selecionar anúncios publicitários com grande possibilidade de serem de nosso interesse. Isso significa que o que até o que escrevemos particularmente em nossos e-mails esta sendo reconhecido, e identificado. Não há privacidade, e nada impede de não haver ou de se criar um controle de informação.

Todavia, os meios digitais estão facilitando a difusão da informação. Até mesmo uma mudança na lei do direito autoral esta sendo trabalhada e repensada devido a esse novo meio. Em agosto de 2008, houve um seminário na USP que reuniu artistas de todas as áreas, educadores e pesquisadores para uma discussão sobre “Direitos Autorais e Acesso à Cultura”. Deste seminário originou-se a “Carta de São Paulo pelo Acesso a Bens Culturais” em que era requisitada uma revisão na lei dos direitos autorais, e que alegava que as novas tecnologias de informação e comunicação potencializam o compartilhamento dos conteúdos culturais e trazem novas possibilidades de comunicação. Visava assim diminuir as intermediações na comercialização dos materiais, de forma a proporcionar uma maior autonomia e independência econômica aos autores e uma expansão das fronteiras do mercado cultural.

Verifica-se, então, que o desejo de descentralização, e do fim da exploração do mercado, desejada por Cildo Meireles em 1970, pode estar começando a ganhar força com as novas alternativas comunicacionais. Talvez, – só talvez – com a internet, consigamos acabar com o monopólio midiático. Mas isso só o tempo dirá.

Referências Bibliográficas:

MEIRELES, Cildo. Gerardo Mosquera conversa com Cildo Meireles, 1995 In: Cildo Meireles, São Paulo: Cosac e Naif, 2000. Pg. 06 – 35.

_____________, Information, Publicado em Cildo Meireles, IVAM Centre Del Carme, Valêcia, 1995, p. 175-176. In: Cildo Meireles, São Paulo: Cosac e Naif, 2000. P. 108-109.

___________, Inserções em Circuitos Ideológicos, 1970-75. In: Cildo Meireles, São Paulo: Cosac e Naif, 2000. P. 110-116.

___________, Bravo Online, jul. 2006. Entrevista concedida a Fernando Oliva. Disponivel em: <www.canalcontemporaneo.art.br> Acesso : agosto, 2010.

Carta de São Paulo pelo Acesso a Bens Culturais, São Paulo, 2008 – Disponivel em: <http://stoa.usp.br/acesso> Acesso: agosto, 2010.

SAMPAIO, Rafael. BARROS, Chalini. O Twitter pode te calar, 2010 . Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br> Acesso: agosto, 2010.


[1] Wladimir Herzog foi um jornalista da TV Cultura e membro do Partido Comunista, morto na prisão pelas forças da ditadura militar em 1974, e que na época teve a causa de sua morte divulgada na mídia como suicídio.

[2] Trabalho realizado em 1970 que consiste em cédulas de zero dólar criadas em serigrafia por Cildo Meireles.

[3] O Google é uma empresa desenvolvedora de serviços online, sediada na Califórnia, Estados Unidos.

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