Desdobra : “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral“

03/03/2010

Desdobra :

“Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral“

de Friedrich Nietzsche

Por: SILVA,Patricia Mara

”As verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são,

metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível,

moedas que perderam sua efígie e agora só entram

em consideração como metal, não mais como moedas.”

Nietzsche,1876

Venho apresentar minha analise e reverencia ao texto “A Verdade e a mentira no sentido extra- moral” de Friedrich Nietzsche, publicado em 1873. Um texto esplendido que nos mostra toda sensibilidade do filosofo alemão, que usa de uma linguagem quase poética para tratar da discussão sobre a construção da verdade pelo homem, esta verdade que rege seu mundo pelo universo da razão.

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo solidas, canônicas e obrigatórias.” Pq 34

Suas primeiras palavras no texto são de critica e desprezo ao comportamento arrogante da humanidade perante a natureza, dizendo que sobre os olhos e os sentidos humanos, repousa uma nuvem de cegueira gerada por essa altivez e arrogância com que é cultivado o saber, que os engana sobre o valor da existência, pois traz em si valor sobre o próprio saber de modo vanglorioso e orgulhoso. Com ainda mais desprezo, nos descreve a humanidade através de uma fabula, demonstrando o quão pequenos e desprezíveis somos diante do universo. Descreve nossa existência como apenas “o minuto mais soberbo e mais mentiroso da historia universal.”

Nós homens, usamos o disfarce como meio de competição e conservação do individuo, assim como um touro usa de seus chifres. Estamos representando todo o tempo, fazendo um jogo teatral diante dos outros e de nos mesmos, não temos ciência do quanto é improvável de acontecer entre os homens um honesto e puro impulso a verdade. Que estamos imersos em ilusões e imagens de sonhos. Os olhos apenas vêem formas, e as sensações não nos conduzem jamais a verdade, pois se contenta em apenas receber estímulos, segundo Nietzsche. Indaga pelo que sabe o homem de si mesmo, e se seria possível ele se observar completamente. Brinca dizendo que a natureza nos esconde a chave para a verdade, mantendo-nos a parte das circunvoluções dos intestinos e do fluxo rápido das correntes sanguíneas. Somos um corpo exilado e trancado em uma consciência orgulhosa e charlatã.

Outra questão colocada pelo filosofo é a de se considerar a linguagem a expressão adequada a realidade. Diz que na linguagem surgem as primeiras leis da verdade, que pela primeira vez, é criado o contraste entre a verdade e a mentira. Quem mente, esta usando designações validas, as palavras, para fazer parecer o não-efetivo como efetivo. Se a verdade na forma da tautologia não for suficiente, compram-se eternamente ilusões por verdades. Uma palavra é intrinsecamente a figuração de um estimulo nervoso em sons, mas considerar uma causa externa para o estimulo nervoso da palavra, não condiz com o principio da razão. “Dividimos as coisas por gênero, designamos arvore como feminina e vegetal como masculino, tudo isso arbitrariamente. Colocando-se as diferentes línguas lado a lado, notamos que nas palavras a verdade pouco importa… a coisa em si é para o formador da linguagem, inteiramente incaptavel e nem se quer algo que vale a pena.” pag.33

Quando se trata de conceitos, considera-se este, formado pela igualação do não-igual. A palavra para ser um conceito deve convir a um sem-número de casos, mais ou menos semelhantes, um conceito não é nunca completamente individualizado e único. Nietzsche exemplifica esta argumentação dizendo:

“assim como é certo que nunca uma folha é inteiramente igual a uma outra, é certo que o conceito de folha é formado por arbitrário abandono dessas diferenças individuais, por um esquecer-se do que é distintivo, e desperta então, a representação, como se na natureza além das folhas houvesse algo que fosse “folha”, uma espécie de folha primordial, segundo a qual todas as folhas fossem tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas, pintadas, mas por mãos inábeis, de tal modo que nenhum exemplar tivesse saído correto e fidedigno, como copia fiel da forma primordial.”

Já em Deleuze (LINS, 2004), o conceito adquire uma característica a mais, pois se remete a um acontecimento, e são susceptíveis de mutação. Nietzsche trata a verdade como metáforas usuais apenas, isso é, mentiras ditas por todo mundo dentro de um estilo obrigatório para todos. Mas devido ao esquecimento disto, chega-se ao sentimento da verdade.

“Quando alguém esconde uma coisa atrás de um arbusto, vai procurá-la ali mesmo e a encontra, não há muito que gabar nesse procurar e encontrar: e é assim que se passa com o procurar e encontrar da “verdade” no interior do distrito da razão.“ pag. 36

O procedimento da razão consiste em tomar o homem por medida das coisas, pois acredita-se que exista essas “coisas” como objetos puros diante de si. Não considera as metáforas de origem como simples metáforas, e sim como as coisas mesmas. Temos, nós homens, esse impulso a formação de metáforas, e esta característica que nos diferencia dos demais animais, transformar imagens em conceitos, e assim criar um mundo regular e rígido, com definições e classificações imutáveis. Mas ainda sim, este impulso a metaforizaçao encontra outro campo de atuação, onde a rigidez e a racionalidade são mais diluídas. Vemos isso nos mitos e na arte, onde conceitos são embaralhados, e são propostas novas transposições, metáforas e metonímias, deixando o mundo rígido um pouco mais maleável e parecido com o mundo do sonho.

O autor finaliza o texto comparando o homem intuitivo com o homem racional, e diz que ambos desejam ter o domínio sobre a vida, que o primeiro é tão irracional quanto o segundo é inartistico. Um como um herói eufórico e outro com todo cuidado e prudência ao enfrentar necessidades. Considera o homem intuitivo aquele que desfruta das emoções com mais intensidade. Portanto, o mais susceptível à felicidade, pois desfruta da vida com mais entusiasmo e paixão. Já o homem estóico, que é instruído pela experiência, é governado pelos conceitos não pelos sentimentos, procura a retidão e a imunidade à ilusão, e “desempenha agora, na infelicidade, a obra prima do disfarce…não grita e nem sequer altera a voz: se uma boa nuvem de chuva se derrama sobre ele, ele se envolve em seu manto e parte a passos lentos, debaixo dela.” Pag. 38

A partir deste texto, desenvolvi um trabalho lúdico para a disciplina misnistrada por Marcelo Kraiser, em que foi requisitado uma classificação absurda de imagens. Eu montei meu trabalho inspirado nas classificações cientificas das ciências químicsa e biológicas, em que é de grande valia a classificação de elementos do mundo (seres, matérias, órgãos). Este trabalho ilustra bem, de forma irônica, este homem racional cientifico e as questões das verdades trabalhadas por Nietzsche neste texto. Portanto, foi a desdobra que fiz deste texto de Nietzsche: Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-Moral.

REFERENCIAS:

LINS,Daniel. Juízo e verdade em Deleuze. São Paulo : Annablume editora, 2004.

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral (1873) in Obras Incompletas, São Paulo: Editora Nova Cultura, 2000.

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2 Responses to “Desdobra : “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral“”

  1. cyrano Says:

    Pois os limites que o conhecimento racional fixa para a vida são os mesmos que a vida racional fixa para o pensamento: a vida é submetida ao conhecimento ao mesmo tempo que o pensamento é submetido à vida. De todo modo a razão ora nos dissuade ora nos proíbe de ultrapassar certos limites, porque é inútil (o conhecimento está aí para prever), porque seria mal (a vida está aí para ser virtuosa), porque é impossível (nada há para ser visto nem para ser pensado atrás do verdadeiro).

    Deleuze: Nietzsche e a filosofia.


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